Um cão andaluz: o romper do olhar

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No ano de 1929, o cineasta Luis Buñuel apresentou sua obra que, mesmo após tantos anos continua chocando o espectador. Questionador, transgressor e surreal, assim é “Um cão andaluz”.
Se me dissessem: restam-lhe vinte anos de vida, o que quer fazer das vinte e quatro horas de cada um dos dias que vai viver? eu responderia: dê-me duas horas de vida ativa e vinte e duas horas de sonho, contanto que possa lembrar-me destes – porque os sonhos só existem através da memória que os alimenta.
– Luis Buñuel

Em 1924 o escritor André Breton publicou o “Manifesto Surrealista”, um movimento vanguardista que pregava novas propostas para o ramo artístico. O manifesto propõe que os artistas se libertem das amarras instituídas pela sociedade, expressando-se de maneira irracional, livre, seguindo seus impulsos interiores. Fundamentado na obra de Freud, o surrealismo parte em busca daquilo que é expresso pelo subconsciente por meio dos sonhos e dos desejos.

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As ideias surrealistas inspiraram, entre tantos outros artistas, os amigos Salvador Dalí e Luis Buñuel. Dalí, conhecido por suas pinturas surrealistas como “A persistência da memória” e “Metamorfose de Narciso”, conheceu Buñuel na chamada “Residencia de Estudiantes”, onde boa parte dos intelectuais espanhóis residiam.

A partir das ideias propostas pelo manifesto, ambos decidiram roteirizar um filme. Do encontro de dois sonhos, um de Buñuel, onde uma nuvem fina cortava a lua enquanto uma navalha talhava um olho e outro de Dalí, sobre uma mão cheia de formigas. Em menos de uma semana eles já tinham pronto o roteiro que daria vida a “Um cão andaluz”.
Para escrever o roteiro, o método utilizado foi descartar tudo aquilo que pudesse criar alguma explicação. Eles se ativeram ao onírico, ao irracional.

Segundo o próprio Buñuel, os surrealistas “lutavam contra uma sociedade que detestavam, utilizando como arma principal o escândalo (…) o escândalo pareceu-lhes durante muito tempo o instrumento revelador todo-poderoso, capaz de pôr à mostra as molas secretas e odiosas do sistema que era preciso derrubar”. Se o escândalo era a arma dos surrealistas, Buñuel e Dalí souberam bem aproveitar-se dela. Apesar do enorme sucesso do filme (8 meses em cartaz), o filme não saiu livre de críticas.
Sem uma ordem linear (o que retira os espectadores acostumados com o melodrama, onde a história tem um propósito, assim como um começo e fim, do lugar comum), “Um cão andaluz” como nas histórias infantis, começa com a inscrição “era uma vez…” e a partir daí, os anos avançam e retrocedem em uma história onde o interior dos personagens vale mais do que a narrativa.

Sem sombra de dúvidas, a cena mais conhecida do curta-metragem é aquela que uma navalha corta o olho de uma mulher que olhava no céu nuvens encobrindo a lua. Como dito anteriormente, essa cena nada mais é do que um sonho de Buñuel, entretanto, até hoje pessoas buscam algum significado: o romper do olhar (pela busca à admiração daquilo que é novo), uma maneira de chocar a sociedade da época. Infelizmente, não se pode saber o que passava no inconsciente do diretor…

Muito mais importante do que a história que conta, em “Um cão andaluz” a forma como ela é contada é de extrema importância. A aparente anarquia de cenas sem sentido é um crítica a sociedade tradicionalista e reacionária da época.

Referência:

Todas as citações foram retiradas do livro “Meu último suspiro” de Luis Buñuel.

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