Paula Scher e o campo do design

0
336

O blog Pr*tty Sh*tty publicou nesta semana uma entrevista com a Paula Scher, onde ela discute aspectos da relação dos designers com clientes corporativos. Compartilho aqui alguns trechos (tradução minha):

Eu acho que esse foi um ano ruim para o design em geral e não estou muito certa do que tenho visto ultimamente. Na maior parte das vezes, eu sinto como se estivesse testemunhando o total abandono do design gráfico. É como se toda a indústria estivesse gritando:

SOMOS POBRES
ESTAMOS COM MEDO e
SOMOS IDIOTAS.

(…)

Muitos jovens designers talentosos abandonaram seu papel em melhorar o ambiente visual geral. Muitos só querem trabalhar em projetos culturais, ou sem fins lucrativos, ou em projetos que eles entendem que são “bons para a sociedade”. Isso pode ser valorizado dentro da comunidade dos designers, mas de fato não atinge as pessoas comuns. Esses designers tem medo de se envolver nas áreas dominantes de design de embalagem, design promocional ou corporativo. Eles esquecem que esses são os produtos e mensagens com as quais a maior parte das pessoas realmente se defronta no cotidiano, que esses produtos e serviços estão no coração da América e que há a responsabilidade para nós, como designers, de sempre aumentar a expectativa do que o design pode ser. Nós somos responsáveis por essa experiência cotidiana. Esses designers intelectuais deixam a tarefa para outros (agências de publicidade, micreiros, etc) que estão trabalhando somente pelo dinheiro e frequentemente não se importam com o resultado.

(…)

Eu acho que foi a comunidade de designers que causou isso. O manifesto “First Things First” inspirou muitos jovens a afastarem-se dos projetos corporativos de branding, publicidade, design promocional, design de embalagem (com exceção de livros e revistas, como se fossem de alguma forma mais nobres). Se esses designers conscientes, que se importam com a sociedade e com o meio ambiente, se recusam a trabalhar nas áreas de branding, publicidade, design promocional e design de embalagens, então imagine, quem o fará? Essa corrente de design-thinking está sendo perpetuada em tantas escolas de design, programas de pós-graduação e também pela AIGA e outras organizações de designers. É fácil inspirar jovens designers desse jeito, criando uma verdadeira missão para eles: “abaixo as corporações da América”, etc. Mas, no fim das contas, cria uma sociedade de designers na qual se aceita que eles abandonem a maior parte da comunicação visual americana. Meu deus!

O problema está colocado: muitos designers distanciam-se de projetos mundanos, como design de embalagens, seja pelo difícil acesso ao mundo dos gigantes corporativos, seja pelo desinteresse dos próprios designers em tentar superar as diferenças culturais que dificultam o diálogo com esses clientes. Ao mesmo tempo, a “nobre” área cultural é um refúgio que, infelizmente, atinge apenas uma pequena parcela da sociedade.

No catálogo da última bienal brasileira de design da ADG (2009), na seção “Design propulsor de economia”, João de Souza Leite explica que, no Brasil, o “divórcio” entre os designers e a “economia real” tem raízes históricas. Existe na sociedade brasileira uma tradicional separação entre a alta cultura e o trabalho, sendo a aplicação prática pouco enfocada na educação. Além disso, o ensino do design importado da escola alemã sempre privilegiou o pensamento utópico e não a intervenção efetiva na realidade.

O resultado é que, ao invés de serem agentes, os designers assistem frustrados a uma produção visual massiva de baixa qualidade. Conviver com tanto trabalho mal feito dá uma ideia de quanto há para ser melhorado. Segundo Scher, é nossa a responsabilidade de aumentar a expectativa do que o design pode ser.

RECEBA NOSSAS ATUALIZAÇÕES GRÁTIS
Enviamos nossos novos posts por e-mail para que você não perca nenhuma novidade!