O designer-ilustrador

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Nos cartazes criados pelo francês Bernard Villemot (1911-1989) não há divisão entre o design e a ilustração. Ao contrário: o próprio desenho resolve, a um só tempo, a estruturação visual da peça gráfica e o problema da comunicação de idéias. Famoso por seus cartazes publicitários, Villemot produziu designs para Air France, Perrier, Orangina e para a marca suíça de sapatos Bally, entre outros. O seu trabalho possui o mesmo charme francês dos modernos Cassandre e Savignac, onde se vê uma esperteza da síntese visual, delicadeza das figuras representadas, uso sedutor das cores e o humor perspicaz.

O trabalho de Villemot se insere num contexto que Meggs chama de “imagem conceitual”. Após a Segunda Guerra Mundial, a ilustração realista não respondia mais às necessidades da época. A fotografia surgiu apresentando maior fidelidade das imagens, e começou a tomar o mercado tradicional da ilustração. No momento em que a fotografia passou a ser o principal meio de representação fiel da realidade, a ilustração assumiu uma nova função: a de comunicar idéias e conceitos. Os artistas gráficos começam a se expressar através de imagens mais pessoais, com estilos e técnicas próprias.

Hoje, fala-se em uma volta do designer gráfico como ilustrador. Este é o assunto principal da última edição da revista Eye (nº 72). No artigo “Schism and reunification”, Adrian Shaughnessy explica como, ao longo dos anos 1980, o design gráfico profissionalizou-se e tornou-se estratégico, seguindo os novos conceitos de branding no mundo corporativo e separando-se da ilustração. Durante praticamente os vinte anos seguintes, os designers deram preferência para o uso da imagem fotográfica, pura ou manipulada através das novas ferramentas digitais. A tipografia e a fotografia foram consideradas como mais confiáveis na transmissão das mensagens de marketing.

Atualmente, segundo Shaughnessy, o que se vê nos diversos cantos do mundo é uma nova forma híbrida de design gráfico, ainda baseado na tipografia mas repleto das qualidades expressivas comumente encontradas em ilustrações. A ilustração ganhou um novo patamar e significa hoje qualquer tipo de imagem criada, composta, produzida pelo gesto manual ou por combinações aleatórias geradas por softwares; pode ser tridimensional, virtual, física, interativa ou estática. Os autores desse novo tipo de visualidade, contudo, ainda se auto-denominam designers gráficos.

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Anúncio para a revista The Economist (2007).

Steve Hare, autor do artigo “Drawn into conversation”, reúne exemplos de designs e campanhas publicitárias recentes que mostram as grandes marcas usando ilustração cada vez mais frequentemente. Para Hare, a ilustração ressurge como uma forma mais honesta de diálogo com o público, atrelando as marcas à histórias mais humanas. Como carrega necessariamente um traço pessoal, a ilustração consegue, por enquanto, delimitar um território mais autêntico nesse mar de produtos e imagens que habitam a vida contemporânea.

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