Mão, bico de pena, nanquim e papel

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Conheci alguns desenhos de Arnaldo Pedroso d’Horta (1914-1973) enquanto pesquisava sobre as ilustrações de Odiléa, pois ambos foram colaboradores do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulono começo da década de 1960. Eu já imaginava que iria gostar de ver os desenhos dele na Pinacoteca. Realmente me surpreendi, não apenas com a qualidade da sua obra artística, como também dos seus textos críticos.

Esse artista de nome pouco conhecido teve a carreira iniciada no jornalismo, começando a pintar relativamente tarde, como autodidata. Logo trocou a pintura pelo desenho, ganhando o Prêmio de Melhor Desenhista Nacional na 2a Bienal de São Paulo, em 1954. No mesmo ano, foi também o primeiro brasileiro a ser premiado na Bienal de Veneza.

Com a obra fundamentada no uso meticuloso da pena com nanquim, tratando de assuntos da natureza como folhagens, bichos reais ou inventados e estruturas orgânicas, Arnaldo Pedroso d’Horta tinha um sério caso de amor pelas ferramentas e suportes do desenho. Mão, bico de pena, nanquim e papel trabalhavam com muita intimidade. Ao artista, restava o prazer de assistir a superfície do papel ser preenchida lentamente, por uma mão que parecia ter vontade própria. Alguns trabalhos demoravam dias para serem concluídos, numa demora meditativa e fundamental.

Sendo ao mesmo tempo artista e crítico de arte, com textos publicados em vários jornais, Arnaldo d’Horta foi inevitavelmente muito exigente consigo mesmo. Da confluência dessas atividades distintas, porém complementares, vê-se como o seu trabalho artístico aprofundou-se com o exercício de reflexão constante, presente nos seus textos críticos. Da mesma maneira, mas na direção inversa, os seus textos críticos foram influenciados pela experiência própria do fazer. No caso dele, ganharam ambos.

“Para devolver ao mundo os restos da matéria que absorveu, para que essas emanações incolores se tornem legíveis, para que sua fala sem língua se faça audível, para que sua dança recenda perfume – dai à mão uma caneta com pena. Os cinco rio secos para esta irão confluir, e por ela despejar-se no mar de papel.” (A. P. d’Horta, “Desenho da mão”, 1956).

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