Especial Cinema Iraniano: DEZ

0
374

Abbas Kiarostami é conhecido por seus filmes realistas que, por meio de histórias simples e do uso de parábolas, conseguem projetar um pedaço da sociedade iraniana. Exemplos desses filmes são “Gosto de cereja”, onde um homem que pretende cometer suicídio procura alguém que possa enterrá-lo depois do ato. Diante disso, acaba se deparando com diversos personagens, entre eles, um homem que diz não ter cometido suicídio ao se lembrar do goste de uma cereja. Outro exemplo é “Onde fica a casa de meu amigo?”, filme que projetou Kiarostami internacionalmente, sobre um menino que pretende devolver o caderno do amigo.

Em 2002, Abbas Kiarostami lança um filme bem diferente do que já havia feito até então. “Dez” é um retrato das mulheres iranianas urbanas e tem como cenário único o carro de Mania Akbari.

Ali, ela da carona para diversas mulheres, além de seu filho Amin. Em cada uma das mulheres que por lá passam podemos ver uma perspectiva da sociedade iraniana. Em contraponto, a visão de mundo de uma figura masculina pode ser encontrada no pequeno Amin.

Mania se separou do marido por buscar uma liberdade que não encontrava com este e casou-se novamente, o que provocou a ira de seu filho Amin, que não aceita o rumo que a mãe tomou para a vida e constantemente questiona seus valores. Podemos encarar as falas de Amin como a revolta comum por ver seus pais se separarem ou como reflexo de toda uma tradição que beneficia muito mais o homem do que a mulher. Em determinado ponto do diálogo, Amin acusa a mãe de ter dito que o pai era usuário de drogas, ao que a mãe se justifica que só fez isso por conta das leis, que a impede de se separar se o marido não for dependente químico ou a agredir fisicamente.

As mulheres que passam pelo carro de Mania contrapõem valores religiosos e mundanos. Enquanto uma das mulheres procura sempre ir ao Mausoléu para rezar em busca de seu casamento, outra, que é prostituta, conta como lida com o sexo pago – “Tudo nessa vida é um troca”, ela diz em determinado momento.

Tudo em “Dez” é aparentemente simples. São apenas duas câmeras digitais, uma focada no passageiro e outra na motorista. Por vezes durante todo o diálogo só conseguimos ver um dos lados, o outro é apenas ouvido.

O filme é dividido em dez segmentos e em cada um deles é possível encontrar uma nova história ou a continuação de uma outra. São trechos longos de câmera parada e com pouquíssimos cortes. O que sustenta toda a trama são as incríveis atuações, a começar pela do menino Amin. A interação entre Amin e Mania é tão absurda que é impossível não dizer que estamos diante de uma situação real.

Isso também é possível pela maneira como o filme foi feito. Cada uma das escolhas de filmagem e edição aproximou ainda mais “Dez” de um caráter quase documental. Podemos dizer que ele fica bem no meio da tênue linha que separa ficção e não ficção.

Para finalizar é necessário ressaltar que, mesmo com uma sociedade tão diferente da nossa, o drama de cada uma dessas mulheres se assemelham muito com o drama de tantas outras mulheres da sociedade ocidental, que nos aproxima ainda mais de cada uma delas, que conseguem transmitir todas as suas experiências de maneira universal.

RECEBA NOSSAS ATUALIZAÇÕES GRÁTIS
Enviamos nossos novos posts por e-mail para que você não perca nenhuma novidade!